ABBI – Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial
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14 de maio de 2018

Biocombustíveis geram escala para projetos industriais com tecnologias mais sofisticadas

Micro-organismos promissores criados em laboratório devem percorrer um longo caminho até alcançar escala industrial

 

Revista Químicos e Derivados – por Marcelo Fairbanks – Aprovada em dezembro de 2017, a Lei de Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) terá efeitos maiores que os elencados em sua introdução. Além de complementar a matriz de oferta de combustíveis, porém com substâncias de origem renovável, e descarbonizar as emissões atmosféricas dos veículos de transporte, cumprindo as metas previstas no Acordo de Paris, esse dispositivo legal também dará grande impulso aos esforços brasileiros em biotecnologia.

“O RenovaBio premia a eficiência produtiva e a inovação dos geradores de biocombustíveis, isso pode ser um exemplo para outros programas voltados ao desenvolvimento tecnológico no país”, comentou Bernardo Silva, presidente executivo da Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial – ABBI, entidade civil que reúne as empresas pioneiras na atividade, com o intuito de apoiar a consolidação da biotecnologia no país. Como explicou, a nova lei prioriza a remoção das emissões de carbono, sem indicar uma tecnologia específica. “O governo precisa cumprir as metas do Acordo de Paris, que são ambiciosas, isso se refletirá no valor a ser atribuído aos créditos de descarbonização que beneficiarão os produtores”.

Ainda falta regulamentar a Lei 13.576, mas isso deve ser feito até 15 de junho próximo, prazo final estabelecido para definição das metas anuais da política, com metas individuais (para cada produtor) com indicação prevista para julho de 2019. Segundo Silva, a meta prevê duplicar a produção atual de biocombustíveis, mas o RenovaBio não prevê fontes de financiamento para tanto. “Até agora, a política aponta o tamanho e o valor da pizza, mas não diz como será feita”, comparou.

Pelo tamanho, o setor de biocombustíveis é um forte indutor de projetos biotecnológicos mais avançados que os usados atualmente para produzir etanol e biodiesel. O etanol celulósico (chamado 2G) exigiu o desenvolvimento de enzimas e fermentos, já estando tecnicamente ajustado, embora ainda sofra com problemas de engenharia mecânica e logística. Além dele, há outros projetos promissores, como o da produção de butanol por fermentação de açúcares.

“Nem todos os sócios da ABBI atuam com biocombustíveis, mas têm vários projetos no âmbito de várias indústrias”, comentou. A lista de associados reúne nomes de peso no panorama global, como Solvay, Amyris, DSM, Novozymes, Dow, DuPont, Basf, além de locais, como GranBio, Raízen e CTC.

A ABBI mapeou o tamanho das operações biotecnológicas industriais no país e estimou que o produto interno bruto gerado por biocombustíveis e químicos biotecnológicos pode chegar a US$ 53 bilhões por ano daqui a vinte anos, desde que o ambiente para sua evolução seja favorável. “Esse valor considera apenas os resultados diretos, sem contar o efeito multiplicador na economia”, afirmou Silva. Captura de Tela 2018-05-14 às 17.43.57

Dentro do seu papel institucional, a entidade mantém grupos multivariados para monitorar estratégias voltadas para o desenvolvimento do setor, de modo a apontar caminhos a seguir. “A Alemanha e os Estados Unidos mantêm conselhos semelhantes, pois a biotecnologia é um campo muito amplo que exige ajustar o foco para evitar dispersão de esforços”.

Como exemplo, ele citou os bids, certames para contratação de projetos de inovação com objetivos determinados pelos governos desses países. “Nos Estados Unidos, a marinha promoveu bids que ajudaram a desenvolver o biobutanol, por exemplo, é um mecanismo que o Brasil poderia adotar”, avaliou.

Ao mesmo tempo, Silva salienta que a associação se coloca frontalmente contrária à criação de modelos protecionistas. “O Brasil poderá ter uma indústria inovadora de porte mundial, usando políticas públicas definidas com sólido embasamento técnico, sem distorções”, comentou. Como informou, o setor petroleiro não apoiou a elaboração do RenovaBio, sendo acompanhado pelas distribuidoras de combustíveis.

Nesse ponto, Silva elogiou a atuação do Ministério de Minas e Energia, que buscou harmonizar interesses, permitindo ao governo federal lograr a aprovação da lei pelas casas legislativas com rapidez. “A imagem da biotecnologia industrial é boa na sociedade, todos percebem o valor que ela agrega aos produtos finais”, salientou.

Embora os biocombustíveis sejam a porta de entrada para a biotecnologia industrial avançar. “O setor precisa sair do nicho de mercado que depende mais do preço internacional do petróleo, falta uma sinalização clara nesse sentido por parte do governo, pela via dos incentivos”, comentou. Atualmente, já estão desenvolvidas várias tecnologias alternativas ao uso de derivados de petróleo em vários mercados, mas nem sempre isso é valorizado pelos consumidores. “Os produtos biotecnológicos ajudam a reduzir o consumo de água e de energia, bem como a pegada de carbono dos processos”, afirmou.

Quanto ao arcabouço legal, Silva considera que o Brasil conta com as normas mais atualizadas do mundo. “Acompanhamos o campo regulatório e podemos afirmar que nossa lei de biodiversidade é a mais moderna que existe, tanto que vários players internacionais estão investindo mais no setor”, considerou. Como deficiência, ele apontou o distanciamento entre academia, institutos de pesquisa e empresas.

Evolução de conceitos – Ponto chave para a evolução da biotecnologia é o desenvolvimento científico nas áreas de química e biologia molecular, além dos esforços para aplicar todos esses conhecimentos em operações reais, a atividade tecnológica. O Brasil tem pessoal qualificado e estruturas adequadas para fazer essas pesquisas nas universidades, embora grande parte delas se concentre nas linhas ligadas à saúde humana”, considerou Gabriel Gorescu, diretor de pesquisa e inovação do Grupo Solvay (Rhodia) na América Latina. Ele considera a concentração em áreas de impacto social como natural, e isso também ajuda a desenvolver atividades industriais.Captura de Tela 2018-05-14 às 17.44.08

Gorecu salienta que a região Sudeste do Brasil é a mais bem equipada para atividades em biotecnologia, por concentrar mais recursos humanos e materiais, especialmente no Estado de São Paulo. “É uma estrutura ainda pequena, muito focada em atividades acadêmicas”, disse. Faltam mecanismos institucionais para incentivar a maior colaboração entre universidades e indústrias, mas esse panorama está mudando.

Gorescu informou que as agências de inovação adotaram posturas pragmáticas, com mais flexibilidade para conciliar interesses da academia e das empresas. “As indústrias nacionais também precisam se esforçar mais para entender melhor a pesquisa universitária, que visa gerar conhecimento e publicações”, comentou. Até a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) tem apoiado a interação entre esses elos e mantendo linhas de fomento para projetos de cunho tecnológico.

Como avaliou o diretor do Grupo Solvay, há dois pontos cruciais nessa relação: propriedade intelectual e confidencialidade. Um acordo de patrocínio de pesquisas entre indústria e universidade precisa ser bem elaborado. “São pesquisas longas e não se sabe de antemão se haverá algum resultado útil, o risco é elevado, mas, ao mesmo tempo, pode ser que surja algo muito valioso; como estabelecer um valor para isso?”

Como se trata de desenvolvimento demorado, não só na etapa de pesquisa científica, mas nas fases seguintes, pode ser ameaçada a proteção patentária da inovação de pesquisa, reduzindo a remuneração total da iniciativa. “Além das partes envolvidas, é preciso um esforço dos órgãos de concessão de patentes no Brasil, que estão melhorando, mas ainda há dificuldades”, comentou.

Segundo Gorescu, a saída usual é adotar um modelo de remuneração à pesquisa com base em uma porcentagem do faturamento do produto desenvolvido comercialmente. “Paga-se um prêmio pela exclusividade do uso da inovação, mas isso precisa ser bem estabelecido”, afirmou.

Ele também aponta dificuldades para indústrias bancarem projetos de prazos superiores a cinco anos. Na maior parte dos casos, os acordos são estabelecidos para dois anos, em projetos bem específicos. “Como a Solvay tem uma mentalidade estabelecida de longo prazo, até conseguimos lidar com períodos maiores, mas esses projetos acabam ficando muito caros, é uma limitação”, afirmou. Em geral, as universidades também não gostam de projetos muito longos, pois precisam dos resultados para alimentar teses, fundamentais para a formação de novos pesquisadores.

Da mesma forma, interessa sempre aos pesquisadores publicar suas descobertas, mas isso pode gerar conflitos com o parceiro investidor. “Quando há um relacionamento estável, com um grau elevado de confiança, é mais fácil equacionar esse problema”, salientou. O acordo pode restringir a publicação de partes críticas da pesquisa ou exigir um atraso na sua divulgação, pelo menos até se registrar a patente.

O laboratório mundial de biotecnologia da Solvay foi instalado em Paulínia-SP em 2015, contando com equipe própria de dez pesquisadores, atuando com fermentações, enzimas e exploração química da biomassa. “Temos foco em projetos para cinco anos, de modo a gerar resultados e justificar investimentos mais longos”, disse. Os projetos geralmente são ligados às áreas de atuação da companhia, com destaque em cuidados pessoais e domissanitários. A ideia é complementar o portfólio com itens gerados por biotecnologia, com alta agregação de valor. É o caso dos solventes Augeo, que são derivados de glicerina de biodiesel.

O maior projeto biotecnológico da companhia é a produção de biobutanol (n-butanol) a partir de biomassa, que ganhou impulso com a aquisição da Cobalt, que já tinha avançado bastante nessa tecnologia. “Precisávamos de uma planta-piloto e a instalamos junto à unidade de etanol 2G da GranBio, com quem temos uma parceria”, comentou. “Há alguns problemas, está demorando um pouco para colocar nosso projeto em marcha.”

Condições econômicas – Contar com uma fonte abundante e barata de açúcares é a base dos investimentos biotecnológicos. “Se o preço do petróleo estiver alto, então, é o melhor dos mundos”, disse Gorescu. A conjunção desses fatores embasou a primeira onda de investimentos biotecnológicos, de cinco a dez anos atrás. “Muita gente nisso, mas, com a queda do petróleo e do gás, houve um desânimo, especialmente nos biocombustíveis”.

Depois disso, houve um amadurecimento global, e os novos projetos são menos bombásticos, mas com foco em alcançar rentabilidade em prazos longos. No caso brasileiro, o RenovaBio está criando o mecanismo de C-Bio, um bônus para quem comprove a remoção de carbono. “Isso vai apoiar projetos de etanol 2G, biodiesel e biogás, e o valor de mercado dos C-Bio virá das distribuidoras”, explicou. Não se sabe se esse volume de recursos será suficiente para viabilizar sozinho novos projetos. “Para quem já opera, será um bom auxílio.”

O panorama de negócios deve considerar que o Brasil é importador de gás natural, óleo diesel, gasolina e etanol. Portanto, existe demanda local a ser atendida, com a vantagem de reduzir emissões de CO2.

A Solvay não prioriza o desenvolvimento de biocombustíveis (além do biobutanol), mas considera que o estabelecimento desse negócio poderá criar uma base de biomassa e derivados capaz de suportar outras iniciativas. “Será a hora de criar um RenovaBio dos produtos químicos”, afirmou. Como informou, a meta do Grupo Solvay para 2023 prevê obter a metade de seu faturamento global com a venda de soluções sustentáveis. “Isso também ajudará a melhorar a imagem global da indústria química”, comentou Gorescu.

O aproveitamento bioquímico da biomassa deverá receber mais atenções do que os açúcares diretos. “A desconstrução da biomassa abre um leque grande de produtos que originam diferentes cadeias químicas, fundamentais para viabilizar economicamente o processo”, explicou.

Isso não significa, necessariamente, que uma indústria deva desenvolver sozinha todas essas cadeias. Isso representaria um consumo gigantesco de capital. “Haverá um processo de integração de empresas, parecido com o que existe hoje na indústria química, com algumas diferenças”, prevê Gorescu.

Como exemplo, ele apontou a produção de eucalipto, atividade já estabelecida no Brasil. “É uma fonte muito interessante de biomassa, de rápido crescimento, que daria origem a um leque de 8 a 20 produtos diferentes, muita coisa para uma empresa só”, comentou. É preciso lembrar que, além de estabelecer a tecnologia de produção, é necessário também desenvolver aplicações e mercados para cada produto.

Segundo Gorescu, a Brasil não tem tradição em criar consórcios público-privados para resolver problemas, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos. Também as startups ainda são escassas no setor de biotecnologia, embora tenham um grande potencial de crescimento.

“Resumindo: a biotecnologia é um campo promissor para investimentos no Brasil, mas ainda há um longo caminho pela frente”, concluiu.

Retranca Braskem

A Braskem assinou com a dinamarquesa Haldor Topsoe um acordo de cooperação tecnológica para desenvolver a produção de monoetileno glicol (MEG) a partir de açúcar. Assinado em novembro passado, o acordo prevê a implantação de unidade de demonstração com partida prevista para 2019, na Dinamarca.

Especializada e reconhecida no desenvolvimento de catalisadores e ciência de superfícies, a Haldor Topsoe criou a tecnologia Mosaik (de monossaccharide industrial cracker), que poderá ser usada para promover a hidrogenação de glicose para originar o MEG. Essa rota é mais eficiente e econômica que a atual, que parte de bioetanol para obter bioetileno e daí o MEG. Esse glicol é fundamental para a síntese de resina PET.

“Existem outras empresas globais estudando rotas alternativas, mas, a nosso ver, o processo da Haldor Topsoe é mais seletivo na produção de MEG, portanto mais eficiente”, explicou Gustavo Sergi, diretor de químicos renováveis da Braskem. Ele também ressaltou que a parceira dinamarquesa mantém uma visão estratégica em relação aos biorrenováveis muito compatível com a da Braskem, facilitando o entendimento. “Também é a primeira unidade deles com processo renovável que se aproxima da escala industrial, mas eles desenvolvem pesquisa básica na área há anos.”Captura de Tela 2018-05-14 às 17.44.16

Aliás, como destacou, as duas empresas vinham conversando há muito tempo. Por contar com equipe própria para prospecção e monitoramento de novas tecnologias, ao lado da ampla capacitação em petroquímica e renováveis (como o polietileno verde), a companhia brasileira estabeleceu contato proveitoso com os dinamarqueses. O desenvolvimento da unidade de demonstração, por exemplo, está sendo acompanhado in loco por Alan Assad, especialista em tecnologia de renováveis. Ele informou que, no início de 2019, deverá entrar em operação a primeira seção da planta, em um projeto que prevê cinco seções. “A unidade demo será a mais flexível delas, para testar todas as possibilidades operacionais do processo”, comentou Assad. Além disso, ela validará a tecnologia e confirmará a viabilidade técnico-econômica, apoiando uma futura unidade em escala industrial.

O projeto será alimentado com açúcar (sacarose) brasileiro, hidrolisado em glicose e frutose. Segundo os especialistas, a presença de frutose não atrapalha o processo, que aplicará um catalisador desenvolvido especificamente para isso pela Haldor Topsoe. “O processo já foi testado com açúcares de celulose e amido de milho, com bons resultados”.

Depois de concluído o projeto de demonstração, a Braskem pretende aproveitar o conhecimento adquirido como plataforma tecnológica para outros produtos renováveis, com apoio da parceira. “Há quinze anos, houve uma euforia com vários investimentos em biotecnologia que acabaram sucumbindo com a queda dos preços do petróleo e do gás”, comentou Sergi. “Atualmente, os investimentos estão voltando, porém de forma mais profissional, com mercado garantido para os produtos, cada vez mais competitivos”.

A Braskem vem investindo há anos em tecnologias renováveis, desde o estabelecimento da produção de etileno e polietileno verdes (derivados de etanol). Há alguns anos, firmou parceria com a empresa americana Genomatica para desenvolver a produção de butadieno a partir de açúcares. O projeto ficou estacionado com a desistência de um possível cliente em construir uma unidade de borracha sintética com essa bio-olefina. Segundo Sergi, há outras linhas de pesquisa sendo estudadas pela companhia.

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