ABBI – Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial
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30 de julho de 2018

“Nova edição” do Projeto Genoma quer encontrar desde a cura de doenças até a solução para carros autônomos

ESTRUTURA DO DNA HUMANO JÁ FOI DEDICADO. AGORA, OS CIENTISTAS QUEREM ESTENDER A PESQUISA PARA TODA A VIDA NA TERRA (FOTO: THINKSTOCK)

Iniciativa para mapear o DNA de todas espécies vivas quer encontrar nos códigos genéticos as soluções para os problemas do planeta

27/07/2018 – 12H19 – Por Rafael Faustino – Talvez você não saiba, mas todos os vídeos do YouTube, somados, contém cerca de mil petabytes – unidade que equivale a um milhão de gigabytes. O número é semelhante ao total de informações digitais que a astronomia já gerou em toda a história. Agora imagine esse número, já estratosférico, multiplicado por 40. Quarenta mil petabytes, ou quarenta vezes tudo o que já se sabe sobre o universo, é o que a humanidade pode ganhar em dados essenciais para seu avanço e para resolver os problemas vitais da espécie com o Projeto Biogenoma da Terra (traduzido de Earth Biogenome Project).

Trata-se de uma iniciativa audaciosa discutida por cientistas de todo o mundo para sequenciar o genoma – a cadeia completa de DNA que cada ser vivo possui – de todas as espécies da Terra na próxima década. Descobrindo esses segredos da vida, os cientistas apostam que seria possível pesquisar de forma mais eficiente a cura para diversas doenças; retardar, ou até mesmo reverter, o envelhecimento; e criar tecnologias baseadas no funcionamento biológico do mundo, trazendo soluções para problemas como superpopulações, acidentes de trânsito e o próprio desemprego.

O grupo, que tem participação brasileira por meio da Fapesp, pensa seus desafios a partir do Projeto Genoma Humano, que, ao sequenciar toda a cadeia de genes da espécie humana, permitiu a melhor compreensão sobre doenças genéticas e o comportamento do câncer, por exemplo. “Mapeando apenas 1,2% das espécies, as indústrias química e farmacêutica já desenvolveram avanços que resultaram em vários benefícios de saúde e receita próxima a US$ 5 trilhões. Imagine, então, o que acontece quando mapearmos 10%, 20%, ou a totalidade”, sugere o bioquímico peruano Juan Carlos Castilla-Rubio, membro do Conselho Global para o Futuro do Fórum Econômico Mundial e um dos fundadores do projeto.

Castilla-Rubio comentou esse e outros desafios da biotecnologia durante o Fórum Brasil Bioeconomia, realizado nesta semana pela Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial (ABBI), e garante: dar esse salto de conhecimento não é apenas uma questão de ambição, mas de necessidade. “Estamos vivendo uma grande extinção de espécies. Perdemos 52% da população de espécies vertebradas nos últimos 10 anos”, lembra.

Já há alguns palpites do que seria possível alcançar com esses avanços. Uma espécie de perereca encontrada na Amazônia exala uma substância que contém peptídeos que são capazes de vencer bactérias super-resistentes aos antibióticos comuns – um problema que, segundo a ONU, pode matar até 10 milhões de pessoas até 2050. Entender o sequenciamento genético da espécie poderia levar à compreensão de como esse material é formado no animal, e, quem sabe, produzi-lo sinteticamente.

Juan Carlos Castilla-Rubio, cientista peruano e um dos idealizadores do Projeto Biogenoma da Terra (Foto: Flickr/Fórum Econômico Mundial)

A Amazônia, aliás, será peça-chave nesse projeto. Afinal, acredita-se que entre 20% e 25% da biodiversidade conhecida esteja na região.

Outro caso envolve formigas. Já parou para pensar como elas, mesmo em colônias imensas e andando nas mais variadas direções, nunca colidem? “Elas têm um sistema de transporte auto-organizado que está na base da imaginação de algoritmos para os carros autônomos. Entendendo isso a fundo, poderia-se evitar acidentes em 100% dos casos”, afirma Castilla-Rubio.

Banco de códigos acessível para todos

A boa notícia é que começar esse projeto com a tecnologia atual evita muito trabalho em relação ao primeiro projeto genoma, que encerrou-se em 2003 com equipamentos muito mais rudimentares. “Tudo o que precisamos é de 30 máquinas, que mapeariam 1,5 milhão de genomas em 10 anos. O projeto Genoma Humano custou US$ 2,7 bilhões na época, e esse novo custaria US$ 4,7 bilhões, o que não está muito distante do outro valor, se ele for atualizado”, explica.

Ainda assim, trata-se de algo extremamente ambicioso. E que poderia ser alongado de maneira desconhecida conforme se descubra novas espécies durante os estudos. “Na própria Amazônia, se descobre uma nova espécie a cada três dias, em média”, diz o cientista.

Para expandir a capacidade de contribuição de estudiosos do mundo todo na iniciativa, o Projeto Biogenoma se uniu a outro projeto de larga escala: o Banco de Códigos da Terra (Earth Bank of Codes). O Banco de Códigos, lançado no encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, irá disponibilizar, em um ambiente seguro que utilizará a tecnologia blockchain, a base de códigos genéticos descoberta para consultas e análises.

Mais uma vez, a Amazônia será o piloto para a iniciativa global. E a ideia é que os códigos das espécies da região fiquem disponíveis tanto para cientistas quanto para as tribos indígenas locais, que seriam treinadas para esse manejo de informações.

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